LITERATURA E MÍDIA:
EM FACE À CONSTRUÇAO DO REFERENTE
Claudia Gonzáles Costanzo - UFRGS
“Terras e Gentes” é uma proposta provocativa, muito interessante; atendendo apenas para a polisemia dos dois termos sao muitos os assuntos convocados. O nome de Congresso é uma boa síntese dessa sorte de “poética da viagem” que vai se tornando ubiqua nos encontros de Literatura e que, em parte, resulta de uma situaçao biográfica simples: a maioria de nós temos em nosso corpo as marcas da viagem que estamos fazendo para nos encontrar aquí. Mas, como se trata de falas sobre a Literatura Comparada, o nome do Congresso implica, pelo menos, mais uma viagem; uma viagem entre letras, entre textos: porque as palavras “terras” e “gentes” nao estao no campo semántico da Literatura e, por isso neste contexto tanto “terras” quanto “gentes” precisam ser lidas como metáforas, no sentido literal da metáfora, como “transportes”. É preciso deslocar os dois termos de seus mundos “naturais” e de suas denotaçoes e lidar com eles tentando procurar seus sentidos ao tempo que eles fugem, movimentándose, indo e vindo entre as possivilidades de suas polissemias e seus cruzamentos, entre seus jogos metafóricos, em soma, mudando, burlando as pretensoes de fixaçao de toda pesquisa.
Porém, e só vou resgatar do título de nosso Congresso uma marca morfemática, uma constante nas palavras deste nome: a “ese” que indica o plural. Um morfema claramente semantizado no caso e que, por sua vez, sintetiza outra poética dominante em nossa época: a poética da diversidade.
A “diversidade” tornou-se “lugar comum” em nosso tempo: pensamos que a constante, o que é comum a todos os espaços é, precisamente, sua condiçao de diferentes; acreditamos que a tarefa da pesquisa é procurar as diferenças; cremos que a resposta salvadora para cualquer problema está sintetizada na palavra “diverso”. E nao é apenas a realidade que se reduz à diversidade mas também a comprensao, o estudo da realidade: a cadeia de presupostos é: “todos os homens sao diferentes, entao, todas as suas leituras sao diferentes, portanto só temos pluralidade de leituras”. É essa confianza exagerada na pluralidade, essa alegre tranqüilidade que faz da doxa a episteme, sob o pre-texto de “tolerância” que é hoje um problema. Sob império desta “s”, do plural, estamos próximos a decretar a morte do referente e com ela o fim da comunicaçao que a tolerância procura cuidar e do leitor que essa pluralidade quer privilegiar.
No caso desta comunicaçao os termos “leitor” e “leitura” tem seu sentido mais simples porque o corpus está formado de textos: os artigos publicados por Octavio Paz em 1943 na Revista Novedades (México)e um livro de poemas do mesmo autor (Puerta condenada) que inclui textos escritos entre 1938 e 1946. Ao começo do trabalho eu pensava dispor minha leitura em quiasmo, observando uma oposiçao entre o discurso literário e o discurso da mídia. Observara que desde Antigüidade predomina a idéia de que a Literatura é uma representaçao, e em conseqüencia, a reflexao tem-se centrado nas formas dessa representaçao; assim Wölfflin ou Dilthey podiam definir o estudo da arte como a análise das técnicas de representaçao ao longo da história, ou Huidobro, ou Borges ou Haroldo de Campos (alheios a uma perspectiva historicista) concentrar-se nas formas da representaçao. Observara, também, que, às avesas, a mídia, inclusive na escrita, tenta,criar um discurso icônico, carregado de fotos (ícones por definiçao), e no qual as palavras sao usadas como ícones, como uma transposiçao do referente na página. Ao começo do trabalho pensava cruzar a iconicidade da mídia sobre a poesia e a representaçao da poesia sobre a mídia para mostrar que o discurso da imprensa é uma construçao, que o referente nao está transposto na página dos jornais, mas construído, transformado, que é o resultado da aplicaçao de técnicas de representaçao. Mas no processo chamou minha atençao a insistência de Paz, nos textos assinalados, no fato de que a tarefa dos escritores é dizer a verdade:
No sé cómo podríamos utilizar esta energía estancada y enfermiza, que ahora solo sirve para destruirnos, pero creo que necesitamos, ante todo de la verdad. Pues si la mentira torna fantasma cuanto toca, decir la verdad es empezar a existir verdaderamente. [1]
No mesmo conjunto de textos jornalísticos, apesar de atender para as formas na arte, privilegia o referente:
El arte no es la vida pero su misión consiste en crear otra vida o en eternizar ésta.[2]
No entanto sustenta a idéia de que o poeta “es el héroe de la fatalidad.del subconsciente, de su realidad; quiero decir, el poeta es la víctima, no el vencedor de su poesía.” [3]
E, nos próprios poemas:
Cuando sobre el papel la pluma escribe,/a cualquier hora solitaria,/¿quién la guía?/ (...)
Alguien escribe en mí, mueve mi mano,/escoge una palabra, se detiene/duda entre el mar azul y el monte verde.[4]
Apesar das diferenças entre o discurso da mídia e da poesia segundo estes escritos de Paz, há um elemento comum que nao é o problema da techné, de construir uma representaçao. Ao contrário, é a importância do referente, a realidade do referente e a dependência do escritor, nos dois tipos de discurso, dessa realidade. Nao é o problema das técnicas de deformaçao dessa realidade no discurso, mas o problema da conservaçao dessa realidade no discurso. No primeiro caso a “verdade” está suspendida; no segundo, é a verdade o que interessa. Interessa ao escritor e interessa ao leitor.
Na hipótese de “verdade suspendida” o referente escorrega, os discuros sao apenas máscaras, e só ficam as subjetividades, em plural. É esse plural que vai-se tornando costume hoje.
Sabemos que a singularidade rejeitada em nossa época é a singularidade da Metafísica, essa singularidade que nao deixa espaço para o que está na margem do princípio de contradiçao, que só admite esências, que culminou na noçao de progresso e nela achou seu final. A singularidade de uma hegemonia, correspondente a uma etapa da história, que provoca a negaçao e o apagamento do que vai contra os presupostos dessa singularidade. Essa rejeiçao, como a Metafísica, tem história e, como ela é histórica, é uma etapa da história.
Esta história tem, como tudas, seus hérois. Cada vez que alguém conta a história da rejeiçao da Metafísica, a repetiçao confirma os mesmos hérois. Nietzsche - as leitura poéticas de Neitzsche- procurou nos liberar da escravidao provocada pelas regras de nossas sociedades, por meio da conciência e do questionamiento dessas regras. Os preconceitos voltaram-se os grandes inimigos, nao apenas porque empechem o conhecimento como nos diálogos socráticos, mas porque provocam o sometimento, porque fazem aos humanos menos humanos do que sao. Por sua vez Marx e sua crítica a ideologia íam por um caminho similar. Após Freud forneceu outra versao da escrividao socio-ideológica. Tudos eles geraram genealogias (em plural)de defensores da suspensao dos esquemas de leitura herdados e também nao sao os únicos pais da suspensao dos modelos que no século XX sao reunidos sob a designaçao de “Metafísica”. Uma dessas linhas nos cheva à doença da metafísica e a suspensao de tudo o que nao sejam as coisas; ou seja, nos transporta até Heidegger. De Heidegger passamos à suspensao do signo percorrida por Derrida e a suspensao do saber do pensamento frágil. Se aceitarmos as consideraçoes de Vattimo, aquele homem que Nietzsche queria liberar, acabaria, como conseqüência dos desenvolvimentos dos herdeiros do próprio Nietzsche, preso; ja nao preso das imposiçoes externas a ele, mas preso de sua própria subjetividade. Testemunha de sua própria experiência este sujeito (que também vai-se apagando como sujeito ao apagar-se o objeto do saber), debe acreditar no que percebe, mas sempre atento à relativa falsedade do que está percebendo, sempre tolerante das percepçoes dos outros. Mas a subjetividade é uma nova prisao: ninguém pode entrar nela e prouzir mudanças (isso sempre supoe o risco da dominaçao hegemónica); mas o sujeito também nao pode sair de sua subjetividade e tentar compreender as outras. A subjetividade nao permete atingir mais do que a subjetividade contém. O sujeito fica isolado, clasurado dentro dele mesmo. A mesma regra que protege os direitos de “sua” leitura empeche a aproximaçao desses “outros” que se deseja valorar. Este problema tornou-se tao importante , inclusive na própria configuraçao da ficçao e do texto literário que, por ensemplo, Tania Franco Carvalhal considerou que se precisava de um método para estudá-lo e já está apresentando os avanços de sua pesquisa; parte foi comunicada no recente colóquio sobre Saint Éxupeury, na cidade de Pelotas.
E, entao? Entao, isso que eufemísticamente poderia receber o nome de “poética da diversidade” é uma poética da “incomunicaçao”.
O paradoxo é que esse elogio da diversidade constitui uma nova imposiçao ideológica: de um lado é uma forma extrema de democracia (é sustentada e requerida pela tolerância) e por outro é tao totalitária quanto cualquer hegemonía: apenas há espaço para ela.
Porém, nessa genealogia, nessa história de nossa liberaçao dos preconceitos há outras estaçoes que a moda esquece.
Muito próximas a aquelas preocupaçoes do jovem Paz sobre a verdade, sobre algo maior que cada homem, estao as observaçoes de outro herdeiro de Heidegger, encerrado hoje como uma curiosidade filológica, abafado sob o título “hermenéutica ontológica”.
Talvez, Gadamer gostasse mais de que falassemos de uma “hermenéutica da comunicaçao”. Ao contrário desta visada que agora (nos) domina as chaves na proposta de Gadamer sao o diálogo e a verdade. Para o autor de “Verdade e Método” [5] a verdade de um texto é uma coisa que existe e, portanto, pode ser achada; a tarefa do estudoso é buscá-la. Hoje é difícil acreditar nisso é imaginar innúmeros leitores compreendendo, em silêncio o mesmo ao ler o mesmo texto. Imaginar que na sua solidao leitores que nem sabem da exitência dos outros, estao, através de tempos e espaços distantes, reunidos na mesma leitura comum; imaginar que nao é apenas o texto o que é comum, mas a leitura, a comprensao. Nao é fácil imaginar esta comunicaçao íntima e completa. Porém, a dificuldade nao deve fechar o caminho; e nao o fecha: por ensemplo, Lisa Block de Behar estuda há vinte anos esse processo que acontece no leitor aparentemente isolado, mas vinculado a tudo o cosmos, durante a leitura em silêncio[6]. Percorrer este caminho difícil é importante, e essa importância resulta evidente, se nós pensarmos nas conseqüências desta suspensao da verdade: se a verdade nao pode ser lida, nao poder ser achada, se o que está escrito é um apoio secundário para o exercício da subjetividade do leitor, pouco importa o que se escreve. Só importa o efeito que possa ter no leitor; o referente se disolve. A verdade e o trabalho da busca da verdade sao pouco confortáveis; o prazer de re-encontrarse sempre com a mesma subjetividade é bastante mais confortável do que a busca da verdade. A venta de prazer é um bom negócio; a venta da verdade, provalmente, nao.
Dissemos: a primeira chave é a crença na verdade do texto e a segunda a proposta do diálogo como base do método de busca dessa verdade. Quando Gadamer resgata o diálogo platônico e coloca ao texto no lugar do interlocutor, está resgatando, também, o sentido político da tarefa hermenéutica. O sentido político está além de partidos, de qualquer classe. “Diálogo” nao é polémica. A polémica, o impërio das argumentaçoes, que está baseada na retórica e nao na dialética, é uma forma de tráfico entre subjetividades. As responsabilidades políticas do estudoso quando lê e quando interpreta e do comunicador e do escritor quando produzem seus textos comprometem a tdos com o conjuto e por este caminho voltamos à verdade. A citaçao de Paz inserida nesta comunicaçao, continua:
Pues si la mentira torna fantasma cuanto toca, decir la verdad es empezar a existir verdaderamente. He aquí una de las misiones políticas o públicas de los escritores mexicanos, aunque me temo que muy pocos la verán con simpatía. Prefieren el ejercicio de la mentira, de la verdad prudente o de la media verdad, de la verdad partida o partidista. Verdades de partido: mozas de partido.[7]
Nao é por acaso que Gadamer resgata uma prática da antigua Grécia e de uma época da história dessa civilizaçao na que já se havía definido ao homem em relaçao com a polis. Cada um de nós pertence a algo maior que cada um de nós. A prática do entretenimiento que domina na mídia e que vai estragando a literatura, a prática de “ter” entre, de ter ao destinatário suspendido, pendurando, numa negaçao de todo o existente, a prática sustentada na poética da incomunicaçao, mascarada como poética da diversidade, tem riscos muito graves.
Para terminar, quero dizer que nao estao propondo fazer de Gadamer um novo héroi, nem voltar à metafísica. Boa parte da literatura nao cabe no princípio de contradiçao e aqui temos um grande limite tanto de Gadamer quanto do paradigma “occidental”. Mas no diálogo com as obras de Gadamer nosso “horizonte” se acrescenta e sua própria noçao de horizonte fornece elementos para ultrapassar os limites do paradigma de occidente sem cair na prisao da subjetividade. É isto que estou trabalhando na minha tese com base na idéia de um modelo “helicoidal”, mas isso é outra comunicaçao.
[1]Octavio PAZ. “La mentira de México”, 11 de octubre de 1943. Publicado en Novedades, recogido en Vuelta, Mexíco, Vuelta, 1988, p.370.
[2] Octavio PAZ. “Realismo y Poesía”, 11 de octubre de 1943. Publicado en Novedades, recogido en Vuelta, Mexíco, Vuelta, 1988, p.329.
[3] Octavio PAZ. “Pablo Neruda en el corazón”. Recogido en Vuelta, Mexíco, Vuelta, 1988, p.143.
[4] Octavio PAZ. “Escritura”, en Puerta condenada (1938-1946), recogido en Poemas, Seix Barral, Barcelona, 1979, p. 76.
[5] Hans Georg GADAMER. Vérité et Méthode,(1960) París, Seuil, 1976.
[6] Lisa BLOCK DE BEHAR. Una retórica del silencio, Siglo Xxl, México, 1984, A Rhetoric of silence and Other Selected Writings, Mouton, Berlin-New York, 1995.
[7] Octavio PAZ. “La mentira de México”, 11 de octubre de 1943. Publicado en Novedades, recogido en Vuelta, Mexíco, Vuelta, 1988, p.370.